segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Folha Seca

   Didi, o inventor da “folha seca”, craque que encantou o Mundo com sua elegância no toque da bola já como treinador, conseguiu a façanha de classificar o Peru para a Copa de 70 no México. Dizia Didi que a última coisa que queria seria enfrentar o Brasil, a menos que fosse na final, mas quis o destino que nas quartas de final, enfrentássemos a seleção peruana. O Brasil passou um sufoco naquele jogo, com Gerson saindo contundido num momento crítico da partida, mas com dois gols de Tostão e um de Rivelino, vencemos por 3 a 2, fato curioso foi que essa foi a única partida que Tostão marcou naquela Copa, tenho na memória praticamente todos os principais lances da seleção brasileira em seus seis jogos até a conquista do tri, evento memorável, ainda não existia essa indústria do futebol, que vemos hoje, com valores milionários, interesses de agentes, dirigentes de clubes e jogadores em fazer fortuna, está dando nojo, mas isso é outro assunto.
   Quero falar de um lance, que considero o mais bonito que vi numa partida de futebol. Nos idos da década de setenta, todas as tardes de domingo sabíamos que no campo do CASM sempre tinha uma excelente tarde esportiva, o CASM se apresentava com seus dois quadros(no segundão tinha o Nardinho, Carlinhos Sodré, Faraó e muitos outros bons jogadores) no primeiro quadro tinha o Luizão, depois o Bide, o Nata, Carístia, Eli, Aranha, o Lu(Raul), Renê, Ricardão, Serginho, Nido, Chumbinho e muitos outros craques da bola, que jogavam pelo prazer e amor à camisa. A diversão não se limitava à quatro linhas, tínhamos na arquibancada figuras impagáveis que também sempre estavam lá prestigiando os jogos do CASM como o Zé Sotero, que era um espetáculo à parte.
   Num desses domingos, enfrentava o CASM uma equipe fortíssima, o Milionários, formada por ex-jogadores de grandes clubes brasileiros. Foi uma partida memorável, com lances bem feitos de ambas as equipes, mas o placar não saia do zero a zero, o goleiro do Milionários era muito bom, pegava até pensamento, como se dizia na gíria da época, até que surgiu uma falta para o CASM entre a intermediária e a área grande. Ricardão, jogador de meio campo, que gostava de jogar com número cinco, jogador versátil, atuava no meio campo, defendendo como cabeça de área, como armador e até como ponta de lança, era alto, tinha perto de 1,90, e como todo craque do meio campo, era canhoto, ajeita a bola e ao apito do juiz, eis que surge um lance maravilhoso e inesquecível, acerta Ricardão uma “folha seca”.
   Ricardão, chuta e curva o corpo para a esquerda, a bola descreve uma trajetória ascendente fulminante, no meio do caminho, a bola, como que zombando do goleiro, faz uma dança no ar, ela faz um esse e a partir daí começa uma trajetória descendente, com desvio para a esquerda, bate no travessão, próximo do ângulo esquerdo superior do gol (ainda ouço o estampido da bola no travessão) cai atrás da linha do gol e estufa a rede, foi lindo. O goleiro num misto de surpresa e desilusão, começa a bater palmas para o batedor, e como se não bastasse, vai cumprimentar Ricardão, que já estava comemorando o feito. Sinto pelo fato desse lance não ter sido gravado para a eternidade, mas pelo menos ficou na retina dos privilegiados torcedores que lá estavam.
   Ricardão já não está entre nós, assim como outros atletas que nos alegravam nas tardes de domingo, imagino que Ricardão, Raul(Lu), Serginho, Chumbinho, Rato, Pompiane, Sodré e outros que já não lembro o nome, estão numa peleja em uma outra dimensão, evidentemente que o juiz é o João Merguizo e na torcida está o Zé Sotero, mexendo com todo mundo, com seu rádio ouvindo Fiori Gigliotti.

Por: James Clark

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